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SLZ HARDCORE: Entre turnês e lançamentos, conheça a Basttardz

Formada em São Luís (MA), a banda se prepara para mais uma turnê, desta vez passando por diversas cidades da região Nordeste ao lado de outros nomes intensos do gênero, tanto locais como nacionais.


Começamos o ano já com novidades na Basttardz: Entre as datas já anunciadas, está o show de Natal ao lado da lendária banda Ratos de Porão, confirmando shows em outras cidades como João Pessoa (PB), Parnaíba (PI), etc. Divulgando a turnê e falando mais da trajetória da banda, André Nadler, vocalista, bate um papo com a Mortífera Mag.



Primeiramente, como estão os preparativos para a turnê anunciada? O que podemos esperar desses shows?


Nas reuniões que temos para a organização das turnês, sempre mencionamos que esse tipo de trabalho começa pelo menos seis meses antes do primeiro show acontecer. Precisamos alinhar desde o fechamento das datas com os produtores até como vamos pausar nossas profissões para aqueles dias de foco total na estrada. Estamos chegando ao sexto ano de atividade da Basttardz, e este é possivelmente o ano em que mais vamos levar o trabalho da banda para cidades diferentes. A meta é passar novamente por todas as regiões do país.


No underground, o preparo físico e psicológico para um trabalho desse porte, com três semanas de viagem, precisa ser prioridade. A verdade é que você se desgasta mais no deslocamento de uma cidade para outra do que no próprio palco, executando o show. Estamos ansiosos porque vamos revisitar algumas cidades em que já tocamos e outras pelas quais passaremos pela primeira vez. O repertório desta turnê terá mais músicas e inclui, inclusive, duas inéditas do novo álbum da banda.


Vocês têm dois discos realmente muito bons, “Brasil com Z” e “Auschwitz Tropical”. Focando na temática e composição da banda, mesmo com uma mensagem direta e clara, como foi a escolha dos nomes dos discos?


Acho que podemos dizer que a matéria-prima das nossas letras é o cotidiano do povo brasileiro, e isso deve ter influenciado diretamente o fato de os nomes dos dois primeiros álbuns estarem ligados ao nosso país.


“Brasil com Z” ganhou esse nome muito pelo fato de a primeira música criada para o álbum se chamar assim, mas também reflete um momento em que assistíamos ao povo brasileiro voltar a ter uma admiração cega pelos Estados Unidos e, principalmente nas redes sociais, expor de forma absurda a famigerada síndrome do vira-lata. Ao longo do álbum, também fizemos questão de deixar claro que existem dois tipos de país: aquele vendido para quem está de fora, ou pelo menos distante do núcleo do caos, e um outro Brasil, que é o que vivemos, com todos os problemas de educação, saneamento básico, entre outros.


Já o nome “Auschwitz Tropical” é uma escolha deliberadamente provocativa. A referência a Auschwitz remete a um dos maiores símbolos de horror, desumanização e violência sistemática da história. Ao juntar isso com “tropical”, quisemos criar um contraste direto com a imagem comum do Brasil como um lugar alegre, ensolarado e acolhedor.

O disco sugere que, por trás dessa “imagem tropical”, existem realidades brutais: violência policial, desigualdade extrema, racismo estrutural e abandono social.


Não é uma comparação literal com o Holocausto, mas uma forma de dizer que há um sistema que produz dor e morte de forma contínua, especialmente nas periferias. Temos como inspiração as raízes do hardcore e do punk, que frequentemente usam exagero e impacto para chamar atenção e provocar reflexão.


Sobre o último single “Greve”, o que você pode nos dizer sobre a produção desse trabalho?


Juntamente com o single “Nota de Repúdio”, “Greve” apresenta uma espécie de prelúdio do que vamos lançar com o novo álbum, que sai ainda no primeiro semestre deste ano. Entramos em um processo que podemos considerar natural de amadurecimento das composições e das letras, e essas duas canções funcionaram como um laboratório para o disco que lançaremos em 2026.


Já tínhamos algumas músicas que o público canta ao vivo com a gente, principalmente os refrões, mas “Greve” chegou com tudo ao nosso repertório e acabou se tornando um dos principais momentos dos shows desde que entrou no setlist da banda.


Outro ponto de destaque é o tema da música, que talvez seja, de fato, o nosso forte: falar sobre a luta do trabalhador brasileiro. Em “Greve”, focamos no trabalho informal, especialmente nos motoboys e entregadores de aplicativo, realidade que um dos integrantes vive diretamente. É importante falar de coisas que a gente vive e acompanha de perto.


Para 2026, há planos para início de gravação de álbum ou lançamentos?


O álbum novo deve sair ainda no primeiro semestre e, com ele, vem toda a campanha que envolve um disco inédito, passando por videoclipes, fotos novas e conteúdos audiovisuais para apresentar o trabalho.


Além disso, no segundo semestre temos turnês previstas pelo Centro-Oeste, Sudeste e Sul.

Vale destacar que, já em julho, a Basttardz está confirmada em Belém (PA) e na Ilha de Marajó (PA). Também teremos o lançamento de uma versão que fizemos de uma música que gostamos muito do FBC, “Polícia Covarde”, em parceria com ele.


Falando um pouco sobre a cena maranhense, o que você pode compartilhar sobre sua perspectiva e a recepção da banda na região?


A cena maranhense possui talentos únicos e muita música de qualidade. É inquestionável a quantidade de artistas com trabalhos impecáveis que temos o privilégio de acompanhar de perto, mas a cidade sempre sofreu com escassez de oportunidades e visibilidade. Sendo assim, é sempre uma luta muito grande fazer algo daqui repercutir em nível nacional.


É claro que, assim como em qualquer circuito artístico, há rivalidades desnecessárias, um certo incômodo de alguns artistas com quem começa a ganhar mais espaço, mesmo que minimamente, e até um “silêncio forçado” para evitar reconhecer o trabalho do outro.


Mas isso não representa a maioria da nossa cena, que se torna, a cada dia, mais consciente e passa a priorizar o valor da coletividade.


E a recepção em outros estados, principalmente no eixo Sul-Sudeste?


No começo, nos primeiros shows, a gente ainda era bem reativo e ficava um pouco inseguro quanto a isso.


Mas hoje podemos dizer, sem sombra de dúvida, que temos várias casas pelo Brasil afora. Encontramos aliados em todos os cantos, principalmente no eixo Sul-Sudeste, que lutam a nossa luta e nos abraçam, em algumas situações, até melhor do que nossos próprios conterrâneos.


É claro que o fato de sermos uma banda nordestina traz várias questões quando se trata do cenário musical em nível nacional. Ainda assim, acreditamos que a percepção sobre isso vem melhorando. Mesmo assim, a batalha é constante, e precisamos sempre levantar essa bandeira por onde passamos: a valorização da nossa região e o orgulho de ser nordestino.


Encerrando, vocês são uma banda completamente politizada. Qual recado vocês deixariam para quem diz “para não misturar música com política”?


Misturar música com política? Para a gente, isso nunca foi uma opção, porque tem a ver com a própria essência e com a nossa evolução como corpo social.


A gente vem de um lugar onde tudo já é político: o preço da comida, a abordagem da polícia, quem vive e quem morre todos os dias. Fingir que música é neutra é, na prática, escolher ficar do lado de quem já está confortável. E o hardcore nunca foi sobre conforto, é sobre confronto, sobre expor feridas abertas. Se a pessoa acha que não tem política na música dela, tudo bem, mas também precisa entender que isso já é um posicionamento. O silêncio também fala.


"Nosso recado é simples: não existe arte fora da realidade. E a nossa realidade exige barulho, exige posicionamento. Se incomoda, é porque está funcionando".


 
 
 

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